O Alexandre Belém nos proporciona uma interessante discussão em seu blog “Olha, vê”, ao postar o resultado de um concurso fotográfico europeu que desclassificou as fotos photoshopadas do dinamarquês Klavs Bo Christensen, depois de compará-las com o RAW (que o fotógrafo enviou ao ser solicitado).
O mais interessante do post, denominado “Muito Photoshop?” foi a enxurrada de comentários, pró e contra, que acabam por ressucitar a velha história dos limites do plausível na fotografia documental.
Eu?
Eu gostei das fotos e como disse o Leo Caobelli (do Garapa), o mundo anda pra frente…
Adendo: Klavs declarou da India, onde estava cobrindo o Holi Festival em Mathura, que não vai mais enviar fotos coloridas para o concurso, apenas imagens em branco e preto.
Abaixo uma das imagens (coloridas) que ele produziu durante o festival.


Concordo que o mundo deve andar para frente, é no caso das imagens supracitadas, o software não foi usado para alteração de nenhum elemento referente a composição da imagem, isso sim no caso desqualificaria a imagem para fins documentais (minha opinião).
O arquivo em raw deve sempre ser diferente na imagem capturada, pois como o seu nome pressupõe está cru.
Agora um negativo pb, que teve seu contraste aumentado em processo de ampliação (ex: Filtros de contraste), e uma exposição controlada seletivamente através de máscaras, se fosse enviado ao concurso e lá constatado algum tipo de alteração por processo manual na ampliação seria requerido o negativo de tal imagem?
Cada vez mais acho complexo o quesito de julgamento do que vem a ser uma alteração drástica em uma imagem… e esses fatos são de certa forma positivos, pois coloca em pauta uma reavalição de valores por parte de todos.
Abraço
Luiz Egídio,
Pois é como penso.
Tenho a minha câmera configurada para “Neutro Personalizado”, com absolutamente todos os ajustes zerados; o meu raw é *horrível*.
Mas…
Faço isso pois já “vi” a imagem final ao clicar, e sei que vou interpretá-la segundo o que “vi”.
É uma técnica, como outra qualquer (o que é colocar a câmera em “vivid”? Não é o mesmo?).
Este caso nos remete para uma outra questão: a construção da imagem digital.
Um espectro ronda a fotografia: O mito da fotografia perfeita desde o click.
De que se alimenta esse espectro? Alimenta-se de um ocultamento dos processos de desenvolvimento da fotografia, ou, como bem disse um amigo que almoçou comigo na serra no fim de semana passado, a estética que fica oculta e apresenta-se como ausência de estética, naturalidade.
Este espectro possui um exemplo paradigmático que é a fotografia com cromo. Apenas nela a fotografia feita é idêntica à captura. Mas fora desta hipótese, na qual só cabe ao fotógrafo escolher antes do click o tipo de cromo (ou seja, também há uma decisão estético-narrativa), todo o resto da fotografia fez-se em duas etapas: captura e desenvolvimento.
Observando as fotos da polêmica, notamos nada ter sido acrescentado a elas nem retirado, a não ser contraste e saturação, os quais correspondem melhor à palavra “ênfase” do que à palavra “mentira”. A fotografia é uma narrativa, e o fotógrafo, como todo bom narrador, deu ênfase ao que ele quis para maximizar a narrativa.
Além disso, a comparação com o RAW soa especialmente impossível, visto o RAW mesmo exigir uma técnica de captura na qual se faz um prognóstico do arquivo gerado, não da imagem pronta, para depois extrair do arquivo gerado a imagem. Não apenas é razoável, como também é a melhor técnica.
O que poderia ser diferente? Deveria o fotógrafo ignorar a técnica própria para RAW e setar a câmera como se escolhe um cromo para depois o conversor importar os metadados da setagem? Esta é uma proposta insustentável, pois ela vai de encontro às possibilidades geradas pela fotografia em RAW.
Uma segunda questão é: as fotos seriam aceitas caso a abordagem do tratamento fosse naturalista? Parecendo uma solução inócua, isto é ainda mais grave, pois cria um juízo de “REALIDADE”, um preconceito que deve ser cumprido.
Uma terceira questão. Houve algo nas fotos que fere os princípios do fotojornalismo? Houve algo “feito”, inventado? Em que o RAW difere, quanto ao conteúdo, da foto preparada?
Enfim, são questões dessa transição digital que desnuda como nunca antes o caráter construído da imagem fotográfica, que sempre orbitou o mito da captura realista.
Perfeito, Ivan!
Exatamente como penso.
A questão técnica, do Raw, me parece incompreensível! *Para que* a comissão quer ver o Raw? Ele *TEM* que ser pouco contrastado, pouco saturado, para que possa ser interpretado com todo o seu alcance dinâmico! E é isso exatamente que o fotógrafo fez; viu a cena, preservou os detalhes, a e recriou no laboratório, conforme sua interpretação.
Fotografia não é a realidade.
Nada foi inventado.
Não sou purista a ponto de, como fazem alguns, execrar o uso de programas de manipulação de imagens. Mas acho que tem limite. Se começa a parecer artificial demais, aí eu reprovo. Claro que isso também é algo subjetivo. Essas fotos do Christensen, na minha opinião, ultrapassam o limite e ficaram com um visual e um “feeling” excessivamente artificial… Se justifica ou não a exclusão dele do concurso, aí já não posso dizer nada, até porque desconheço as regras exatas do tal concurso…
Bem, como criação digital, é inegável de que foi um tratamento primoroso! Mas… será que o cara é um fotógrafo ou um bom manipulador de imagens?
O grande Ansel Adams diz em seus livros que a imagem não precisa corresponder à realidade, mas se entendi a “letra da lei” usado pelos juízes, ele foi desclassificado pela falta de rigor fotográfico!
Na primeira foto, será que ele sequer fotometrou? Ou colocou na green zone, tirou a foto e depois “se garante” no photoshop?
Fotografia, na minha humilde opinião, ainda é feita por fotógrafos, e não por manipuladores digitais!
Entendo que quando se fotometra algo, se prioriza uma das áreas da foto (sombra ou luzes) e o software de manipulação da imagem DEVE ser usado para equilibrar a imagem e tentar deixar como a vimos (ou imaginamos) no momento.
Não sou contra o Photoshop, que melhora a auto-estima da mulher que quer sair na foto sem aqueles pés de galinha, ou que corrige imperfeições da modelo para que atinja o que o contratante da peça publicitária encomendou!
Sou contra o Photoshop que transforma uma foto em uma “criação digital” que engana quem vê! No caso das fotos em questão, o que vi foi um total desprezo pelas técnicas fotográficas (Fotometria, etc.) e uma “ode ao photoshop” onde sua utilização nos fez imaginar que, na segunda foto, a pobre moradora vivesse num lamaçal!
São imagens lindas! Mas… eu tbém as desclassificaria se fosse juiz de um concurso. Se fosse um concurso de arte digital, na categoria manipulação fotográfica, seria um concorrente fortíssimo!
[...] comentários com gente a favor e gente contra essa história. A polêmica tb foi parar no blog do Clício aonde a discussão [...]
[...] aqui no Pictura, lá no Olha, vê, que já tem 54 comentários ou ainda no Let’s blogar ou no Clicio Photo News E na nota do Obama photoshopado o PDN está enlaçado. Vamos em frente porque hoje ainda é [...]
Caro Clicio e caros amigos,
o pingback já está aí, mas quero deixar o meu comentário por aqui também. Na verdade, o que eu penso está lá no blog do Belém. Muito interessante e muito rica toda essa discussão.
Acaba que se juntarmos todos o comentários, temos um belo documento sobre a questão.
E aqui no Photo News gostei do comentário do Camilo, muito pertinente. Só discordo na coisa do tratamento, para mim não tem nada de primoroso, pelo contrário, acho que ele abusou. Mas essa é só uma opinião de quem mal sabe usar o Photoshop.
E para quem se interessa, lá no Pictura tem o caso super interessante de uma manipulação de imagem, ou no caso, alteração da realidade. É um artigo do Rinaldo Morelli, de Brasília, uma cidade pródiga em “alterações”. E ainda uma polêmica sobre um “Obama photoshopado” descaradamente.
Abs para todos e bom dia.
Clicio, como escrevi para o Alexandre, parabéns pelo conjunto da obra. A Fotografia agradece.
Caríssimo Versiani;
Sua presença no Clicio Photo News, assim como seu trabalho incansável no Pictura me deixam honrado e confiante na fotografia contemporânea; obrigado por sua colaboração fundamental na divulgação e compreensão do que acontece na fotografia global. Visitar o Pictura diariamente é a minha missa das 7…
Vou te contar uma história, mas conto lá!
Abraços,
Clicio
PS – Volte sempre, seja bem-vindo!
Caro Clicio,
para variar, voltei. Eu sempre volto. Mesmo que um pouco cansado, não desisto.
Obrigado pela história da missa, mas no caso acho que a melhor imagem seria o dito popular…
…Querendo ensinar o padre a rezar a missa.
Sou eu quem aprende por aqui, sem dúvida.
Bacana a nota da Sony e muito boa a “faking death”.
Outro dia passei por um site que fiquei chapado…
Dá uma olhada…
http://www.thanatorama.com/
Gde ab.
Cláudio,
Como sempre voltas, pois és capitão de nau desgovernada, só me resta me sentir honrado.
O site que me indicaste vai ser motivo de um post; fiquei muito impressionado, a viagem é longa e tenebrosa…
Vida longa a Catalunha!
Abraços,