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Archive for 6 de outubro de 2009

Equilíbrio  |  ©2006 Clicio Barroso

Equilíbrio | ©2006 Clicio Barroso

“O pêndulo e a imagem”, é um artigo originalmente publicado na Ed. n# 27 da revista Photo Magazine, sobre o uso exagerado do Photoshop.

Já há muito tempo se tem falado e discutido sobre o uso abusivo e exagerado do tratamento de imagens, suas consequências para a fotografia contemporânea, e seu óbvio distanciamento da realidade da captura. O assunto é polêmico e merece uma reflexão mais apurada, sem levar em consideração apenas a diversão e comicidade dos absurdos postados em sites como o Photoshopdisasters, mas também discutindo a necessidade e as consequências éticas de se transformar radicalmente as fotos, sejam elas comerciais ou autorais.
O estranho é que o principal aplicativo para se processar fotografias acabou se tornando um verbo; “Vou photoshopar aquela, esta ainda não está photoshopada…” dizem os que dele se utilizam, mas a verdade é que o programa sozinho não faz nada, nem é capaz de modificar ou alterar realidade alguma. O problema está certamente com o operador, com o cliente e com quem consome estas imagens.
O que deveria ser apenas uma excelente ferramenta de ajustes tonais, cromáticos e de pequenos retoques, acabou se tornando, nas mãos de usuários inábeis, em vilã da modernidade. O Photoshop é certamente poderosíssimo, e possui mais de 5 mil comandos e menus, permitindo desde o processamento básico e necessário da imagem Raw (através do plugin Adobe Camera Raw), até fusões complexas envolvendo módulos de 3D e vídeo. Isso possibilita, caso assim se deseje, um completo distanciamento visual da imagem daquilo que pode-se considerar como a sua origem, que é a captura digital ou a digitalização de filmes. Muitas vezes este distanciamento é intencional, mas pode ser meramente acidental.
Este poder quase ilimitado de manipulação tem sido usado comercialmente pela publicidade, pelas editoras de revistas e pelo jornalismo, provocando uma mudança profunda no modo de se olhar fotografias, alterando nossa percepção visual e fazendo com que a imagem que era perfeitamente aceitável há dez anos em termos de qualidade, seja agora considerada “tosca”, mal acabada. Quanto mais jovem é o observador, mais este fenômeno se torna evidente, e exemplifico: Tenho duas filhas que praticamente nasceram com o mouse nas mãos, uma de doze e outra de quinze anos. Ambas cresceram vendo-me trabalhar com tratamento de imagens, e comprovando os resultados antes-depois, o que as permitiu desde cedo desenvolver um senso crítico em relação às fotos que observam nas revistas e nos anúncios de publicidade; pois bem, fotos que não sofreram nenhum tipo de tratamento além dos estritamente necessários (ajustes de contraste, balanço de brancos e cores) são por elas consideradas “não-acabadas”, e imediatamente chamam sua atenção. O difícil é explicar que aquilo que estão vendo é muito mais próximo da realidade da captura do que um excesso de manipulação, pois o seu modo de ver imagens já está contaminado, viciado na pós-produção digital.
O pior, porém, é o fato de percebermos a decadência progressiva da qualidade destes tratamentos; o ofício que já foi domínio absoluto de especialistas e fotógrafos, passou a ser disponível a todo e qualquer indivíduo que possua um computador e um aplicativo gráfico instalado, fazendo com que aberrações de todas espécies fossem aceitas, publicadas e muitas vezes elogiadas.
No caso de fotos de pessoas, é praticamente obrigatório o uso exagerado das ferramentas de suavização de peles, ou de ajustes estruturais tais como afinar cinturas, tirar celulites, eliminar as rugas e aumentar a estatura. E não apenas é exigência das publicações, mas também dos próprios fotografados! Porém, quando são feitos por quem não tem noção de luz e sombras, proporções, anatomia e texturas, os resultados tendem a ser catastróficos. Por outro lado, mesmo aqueles profissionais que possuem as habilidades técnicas para realizar o trabalho com perfeição, são muitas vezes levados ao exagero por imposição de quem os contrata, aqueles que assinam o cheque, que obviamente deveriam estar cuidando de outros assuntos e deixando o bom profissional decidir qual é o limite do verossímil, do ético e do estético.
A doença parece ter se tornado crônica, pois nos últimos meses uma enxurrada de absurdos tem sido publicados e criticados, desde a famosa “pele de plástico” das capas das revistas femininas, até o embelezamento vergonhoso de zonas de conflito pelo fotojornalismo, como recentemente aconteceu com as fotos do Irã.
Concluímos assim que recentemente o pêndulo do inaceitável atingiu seu ápice, e para voltar ao ponto de equilíbrio uma contra-proposta está se apresentando: o uso do “não-Photoshop”. Fotos sem maquiagem, sem processamento algum além daquele efetuado pela câmera, sem tratamento de nenhuma espécie. É uma tendência que toma corpo e tem se intensificado com o passar das últimas semanas, mas que tem encontrado forte resistência, pois apesar do entusiasmo dos fotógrafos e editores que a apóiam, o público não consegue mais enxergar beleza no que está próximo a realidade cotidiana. Pensa que a fotografia tem que ser alterada,  glamurizada.
Minha opinião é que a própria inércia (e a gravidade) vão trazer de volta o equilíbrio desejado ao pêndulo; fotos processadas que exibam o olhar do autor, ou fotos tratadas que tenham um fim comercial definido, vão ser menos falsas e mais próximas da realidade tangível, retomando a sensação de verdade que sempre acompanhou a fotografia mais direta, o “espelho com memória” que tanto nos fascina; e o Photoshop, bem utilizado, vai continuar dominando as operações de processamento/ajustes/retoques, absolutamente necessárias e inevitáveis quando se trata de fotografia digital.

Update 01:  Artigos relacionados: Fotoxópi, Polêmica, Phase One, Things Clear, Gente Normal.
Update 02: Mario Amaya também colocou o assunto em xeque na Photoshop Creative, veja o blog.
Update 03: Este artigo está diretamente relacionado as falhas do ensino fotográfico.

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